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IA vira prioridade para novos empreendedores, mas adoção ainda esbarra em custo e segurança

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O que mudou no debate sobre pequenos negócios

A inteligência artificial passou a ocupar um espaço central nas expectativas de quem está começando a empreender no Brasil. Segundo dados da edição 2024/2025 do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), apresentados em um seminário promovido pelo Sebrae, cerca de 74% dos empreendedores em estágio inicial consideram a IA uma prioridade digital para suas operações.

O número não significa que três em cada quatro negócios já usem ferramentas de inteligência artificial de maneira estruturada. A pesquisa mede principalmente intenção e percepção de importância. Ainda assim, o resultado mostra uma mudança relevante: para muitos empreendedores, a IA deixou de ser uma tecnologia associada apenas a grandes empresas e passou a ser vista como parte da estratégia de negócios pequenos e nascentes.

A expectativa está ligada sobretudo a duas frentes. Entre os empreendedores em estágio inicial, 74% acreditam que a IA será decisiva para criar produtos e serviços, enquanto 73% esperam avanços significativos na personalização do atendimento ao cliente. Na faixa de 18 a 34 anos, a intenção de ampliar o uso é ainda maior, chegando a 84%, segundo os dados apresentados no evento.

Por que isso importa para o público geral

A mudança pode aparecer em situações comuns: uma loja que responde clientes com mais rapidez, um prestador de serviço que organiza pedidos automaticamente ou uma pequena empresa que analisa dúvidas recorrentes para melhorar seus produtos. Sistemas de IA também podem ajudar a produzir rascunhos de textos, classificar informações e identificar padrões em vendas e atendimento.

Isso pode reduzir o tempo gasto em tarefas repetitivas e permitir que o empreendedor se concentre em atividades que exigem decisão, relacionamento e conhecimento do próprio mercado. Para o consumidor, a consequência pode ser um atendimento mais ágil e ofertas mais adequadas às suas necessidades.

Mas a tecnologia também pode tornar as interações mais impessoais. Um cliente pode receber respostas rápidas, porém incorretas, ou ter seus dados usados sem compreender exatamente como. A promessa de personalização, portanto, precisa ser acompanhada por transparência e supervisão humana.

A pesquisa indica que o WhatsApp já é utilizado por 94% dos empreendedores brasileiros, enquanto as mídias sociais aparecem em 75% dos negócios. Esses canais continuam sendo mais presentes no cotidiano empresarial do que soluções digitais mais complexas. A IA tende a ser incorporada justamente a essas ferramentas já conhecidas, em vez de necessariamente exigir a criação de uma estrutura tecnológica totalmente nova.

A prioridade não elimina os obstáculos

O entusiasmo convive com preocupações concretas. Segurança e privacidade de dados são apontadas como principais fontes de receio por 51% dos empreendedores iniciais e 54% dos estabelecidos. O levantamento também coloca o Brasil na oitava posição entre os países em que os empreendedores mais temem o aumento dos custos operacionais e a complexidade técnica da implementação da IA.

Esses limites são importantes porque uma ferramenta aparentemente simples pode envolver informações de clientes, histórico de compras, documentos, conversas e dados de pagamento. Inserir esse material em um serviço sem conhecer suas regras de armazenamento e uso pode criar riscos para a empresa e para o consumidor.

Também existe o problema da confiabilidade. Modelos de IA podem produzir respostas convincentes, mas erradas, incompletas ou enviesadas. Em áreas como saúde, educação, crédito, contratação e atendimento ao consumidor, uma decisão automatizada sem revisão adequada pode causar prejuízos difíceis de reparar.

Por isso, a adoção da tecnologia não deve ser avaliada apenas pela novidade da ferramenta. O empreendedor precisa entender qual problema pretende resolver, que dados serão utilizados, quem poderá acessar os resultados e como uma pessoa irá revisar as decisões relevantes. O ponto central não é substituir todo o trabalho humano, mas usar automação onde ela faça sentido sem abandonar a responsabilidade pelo resultado.

O cenário mais amplo do empreendedorismo

A atenção à IA ocorre em um ambiente no qual abrir uma empresa continua sendo muito diferente de fazê-la sobreviver. Dados do Cadastro Central de Empresas, divulgados pelo IBGE, mostram que, entre as empresas empregadoras nascidas em 2017, 37,3% permaneciam ativas cinco anos depois, em 2022. O indicador não mede o efeito da IA, mas ajuda a colocar a euforia tecnológica em perspectiva: uma ferramenta digital, por si só, não resolve problemas de demanda, fluxo de caixa, gestão, concorrência ou qualificação.

A pesquisa também destaca o crescimento do empreendedorismo entre pessoas mais velhas. Conforme os dados apresentados no seminário, 16,5% dos empreendedores brasileiros têm 60 anos ou mais, e mais de 60% dos empreendedores seniores afirmam empreender por oportunidade, não apenas por necessidade.

Esse grupo pode se beneficiar de ferramentas que simplifiquem tarefas administrativas, mas enfrenta desafios específicos de acesso, treinamento e usabilidade. Uma tecnologia voltada a pequenos negócios precisa ser compreensível, acessível e compatível com diferentes níveis de familiaridade digital. Caso contrário, a expansão da IA pode ampliar a distância entre empreendedores que conseguem contratar suporte especializado e aqueles que trabalham sozinhos.

Próximos passos

O dado de que 74% veem a IA como prioridade revela uma expectativa forte, mas ainda não mede resultados econômicos nem adoção efetiva. As próximas edições da pesquisa e estudos mais detalhados deverão mostrar quantos negócios realmente incorporaram essas ferramentas, em quais atividades e com que efeitos sobre produtividade, emprego e atendimento.

Para empresas e consumidores, os sinais mais importantes serão menos espetaculares do que a promessa de uma revolução imediata: sistemas mais claros sobre o uso de dados, possibilidade de contestar decisões automatizadas, revisão humana em situações sensíveis e capacitação para usar a tecnologia com segurança.

A IA pode se tornar uma aliada relevante do empreendedorismo brasileiro, especialmente em tarefas repetitivas e na organização do relacionamento com clientes. Mas seu valor dependerá da combinação entre ferramenta adequada, gestão responsável e compreensão dos limites. A prioridade apontada pela pesquisa é um começo — não uma garantia de inovação, crescimento ou sobrevivência.

Fontes