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Empresas que não usam IA podem ficar para trás — mas adotar sem estratégia também custa caro

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A inteligência artificial deixou de ser apenas uma promessa tecnológica e passou a disputar espaço no orçamento, nos processos e nas decisões das empresas. O risco, porém, não está somente em não usar IA. Também pode haver perda de competitividade quando a organização adota ferramentas de forma isolada, sem dados confiáveis, integração entre sistemas ou objetivos claros.

Um levantamento da Pipefy, divulgado em setembro de 2026, ajuda a dimensionar esse estágio de transição. Segundo o estudo, 71% das empresas brasileiras consultadas já utilizam ferramentas de IA em seus fluxos de trabalho. O uso ainda é desigual: 40% aplicam a tecnologia em processos de rotina e 31% afirmam usá-la de modo recorrente. Apenas 6% dizem ter processos totalmente integrados e orquestrados por IA de ponta a ponta.

Os números sugerem que a discussão já não é simplesmente “usar ou não usar”. Para muitas empresas, a questão passou a ser como transformar experimentos e aplicações pontuais em ganhos reais de produtividade, qualidade e relacionamento com clientes.

O custo de ficar parado

Empresas que ignoram a IA podem enfrentar desvantagens em áreas como atendimento, marketing, vendas, análise de dados e operações administrativas. Concorrentes que automatizam tarefas repetitivas tendem a responder mais rapidamente, testar mais alternativas e liberar profissionais para atividades que exigem julgamento, criatividade e relacionamento.

Esse efeito pode ser percebido pelos consumidores. No relatório de engajamento do cliente da Twilio, 56% das marcas afirmam usar personalização orientada por IA. Além disso, 51% dizem adaptar mensagens com base no comportamento do cliente em tempo real. Na prática, isso pode significar recomendações mais relevantes, respostas mais rápidas e comunicação ajustada ao histórico de cada pessoa.

Quando uma empresa não acompanha esse movimento, a diferença pode aparecer na experiência cotidiana: demora para obter atendimento, ofertas pouco adequadas, dificuldade para resolver problemas e canais que não compartilham informações. Não é preciso que uma companhia tenha um laboratório avançado de IA para competir. Mas ela precisa entender onde a tecnologia já está mudando o padrão de serviço esperado pelo público.

Há também um efeito sobre os trabalhadores. Ferramentas capazes de resumir documentos, organizar informações, localizar padrões ou automatizar etapas administrativas podem alterar a composição das tarefas. Isso não significa que todos os empregos serão substituídos, nem que a adoção produzirá benefícios automaticamente. Significa que profissionais que aprendem a trabalhar com esses sistemas podem ganhar novas responsabilidades, enquanto funções baseadas apenas em atividades repetitivas tendem a ser mais pressionadas.

A armadilha das “ilhas de automação”

A pesquisa da Pipefy mostra por que comprar ferramentas não basta. Quarenta e um por cento das empresas ouvidas mantêm automações que resolvem tarefas isoladas, mas não se comunicam entre si. Outras 32% usam sistemas considerados adequados, porém obrigam funcionários a alternar entre várias telas para concluir um único processo.

Esse cenário cria as chamadas ilhas de automação. Um departamento pode usar IA para classificar pedidos, enquanto outro continua digitando os mesmos dados manualmente. O resultado é mais complexidade, e não necessariamente mais eficiência. Em alguns casos, a empresa passa a pagar por tecnologia sem reduzir o tempo de execução ou os erros.

O levantamento aponta a infraestrutura legada como o principal obstáculo à integração, citada por 35% das empresas brasileiras consultadas. A customização cara e rígida aparece em seguida, com 30%, e a dificuldade de conectar processos, em 16%. Além disso, 21% das companhias afirmam gastar mais da metade do expediente com o tratamento de dados não estruturados, como e-mails, PDFs e planilhas.

Essas limitações importam para as pessoas porque processos mal integrados costumam transferir o problema para o usuário final. Um cliente pode ter de repetir seus dados em diferentes canais; um funcionário pode gastar horas conferindo informações; e decisões podem ser tomadas com registros incompletos ou desatualizados.

Adoção não é sinônimo de maturidade

O relatório da Twilio traz outro alerta: 81% das empresas dizem usar IA simplesmente porque ela já está incorporada às ferramentas existentes, em vez de explorá-la de forma ativa para personalização. O dado indica que a presença da tecnologia em um software não garante uma estratégia de IA.

Há ainda uma diferença entre a percepção das empresas e a experiência do público. Embora 96% das companhias que usam IA em personalização relatem resultados positivos, apenas 45% dos consumidores dizem sentir que essas experiências realmente os compreendem. A distância pode decorrer de recomendações irrelevantes, falta de transparência, erros nos dados ou excesso de automação em situações que exigem sensibilidade humana.

Por isso, a tese de que as empresas sem IA ficarão para trás precisa ser lida com cuidado. O risco maior não é apenas a ausência de uma ferramenta, mas a incapacidade de aprender, testar e reorganizar processos enquanto o mercado muda. Ao mesmo tempo, adotar tecnologia sem governança pode gerar vazamentos, decisões enviesadas, informações incorretas e perda de confiança.

O que as empresas precisam decidir

Em uma apresentação relatada pelo UOL, o CEO Paulo Samia resumiu o desafio ao dizer que a IA não redefine uma empresa sozinha; as decisões da liderança é que fazem isso. A ideia desloca o foco da novidade tecnológica para escolhas concretas: quais problemas devem ser resolvidos, que atividades não agregam valor, quais dados podem ser usados e onde é indispensável manter supervisão humana.

Os próximos passos mais relevantes são mapear processos, escolher casos de uso mensuráveis e conectar a IA aos sistemas já utilizados pela organização. Também é necessário capacitar equipes, estabelecer regras para dados e privacidade, verificar a qualidade das respostas e definir quem responde por uma decisão automatizada.

Para o consumidor, isso significa observar não apenas se uma empresa anuncia IA, mas se o serviço ficou mais claro, rápido, seguro e acessível. Para os negócios, a vantagem competitiva provavelmente estará menos em “ter IA” e mais em usá-la com integração, responsabilidade e foco em resultados. Quem não experimentar pode perder terreno. Quem experimentar sem critério pode apenas trocar um problema conhecido por outro mais caro e difícil de detectar.

Fontes