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Como a inteligência artificial está entrando na rotina das pequenas empresas

A inteligência artificial (IA) já deixou de ser uma tecnologia restrita a grandes companhias. Em pequenos negócios, ela aparece em tarefas mais próximas da rotina: criação de campanhas, atendimento ao cliente, organização de informações e geração de ideias. A adoção ainda é desigual, mas os dados recentes indicam que muitos empreendedores passaram da curiosidade para os primeiros usos práticos.

Uma pesquisa realizada pelo Sebrae em parceria com o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) e o Google ouviu cerca de 5 mil empresas em setembro de 2025. O levantamento mostra que 96% das micro e pequenas empresas (MPEs) afirmavam conhecer plataformas de IA generativa, como ChatGPT ou Gemini. O uso frequente, porém, era declarado por 15% das MPEs. Entre os microempreendedores individuais (MEIs), 87% conheciam essas ferramentas e 18% diziam utilizá-las com frequência.

Os números revelam uma diferença importante: saber que a tecnologia existe não significa incorporá-la de modo estruturado ao negócio. Ainda assim, a IA já começa a produzir efeitos em atividades que consomem tempo e nem sempre exigem decisões complexas.

Marketing é a principal porta de entrada

Entre MPEs, marketing e divulgação eram a finalidade mais citada para o uso de IA, mencionada por 59% dos negócios. Entre MEIs, a proporção chegava a 74%. Na prática, isso pode incluir a elaboração de rascunhos para redes sociais, a adaptação de uma mensagem para diferentes públicos, a criação de descrições de produtos e a organização de um calendário de comunicação.

Esse tipo de aplicação é acessível porque não exige, necessariamente, a criação de um sistema próprio. Ferramentas generativas disponíveis no mercado podem apoiar o primeiro rascunho, enquanto o empreendedor continua responsável por revisar informações, ajustar a linguagem e decidir o que representa sua marca.

O resultado mais lembrado pelas MPEs foi a economia de tempo, citada por 34% dos participantes. Entre os MEIs, a geração de novas ideias apareceu como principal benefício, com 41%. Esses dados ajudam a entender por que a adoção começa por tarefas de comunicação e planejamento: são áreas em que uma pessoa frequentemente acumula funções e precisa produzir mais com poucos recursos.

O DataSebrae também destacou uma pesquisa segundo a qual 52% dos empreendedores brasileiros consultados haviam usado IA nas duas semanas anteriores, contra 21% dos norte-americanos. Como as pesquisas têm metodologias, amostras e definições de uso diferentes, os percentuais não devem ser comparados como se medissem exatamente a mesma coisa. Em conjunto, porém, sugerem que a experimentação entre pequenos negócios brasileiros está avançando.

Do texto ao atendimento

As possibilidades não se limitam à divulgação. A IA pode ajudar a responder dúvidas frequentes, classificar solicitações, encaminhar chamados e localizar informações em documentos internos. Em uma empresa pequena, isso pode liberar o responsável pelo atendimento para lidar com reclamações, negociações e situações que exigem empatia ou julgamento.

Experiências de empresas maiores ilustram esse modelo. Segundo a Microsoft, a companhia de mobilidade Sem Parar reduziu em 9,3% o tempo médio de atendimento após adotar um copiloto para apoiar operadores. A Vivo informou redução de 9% no tempo de atendimento a clientes pessoa física e de 4% no atendimento a empresas com uma ferramenta destinada a seus atendentes.

Esses casos não comprovam que o mesmo ganho ocorrerá em qualquer pequeno negócio. Eles mostram, no entanto, uma distinção útil: a IA pode atuar como apoio ao trabalhador, e não apenas como substituta de uma interação humana. Para uma pequena empresa, uma solução simples de perguntas frequentes ou busca em uma base de procedimentos pode ser mais adequada do que um atendimento totalmente automatizado.

O que muda para clientes e trabalhadores

Para o consumidor, o benefício potencial é receber respostas mais rápidas, encontrar produtos com mais facilidade e ter acesso a serviços fora do horário comercial. Mas velocidade não é sinônimo de qualidade. Uma resposta automática errada, desatualizada ou excessivamente confiante pode prejudicar a relação com o cliente e gerar retrabalho.

Para os trabalhadores, a automação pode reduzir atividades repetitivas, como organizar informações, elaborar relatórios simples ou responder às mesmas perguntas. Isso só se converte em ganho real se o tempo liberado for direcionado para atendimento, vendas, melhoria de processos ou capacitação. Caso contrário, a empresa pode apenas aumentar o ritmo de trabalho sem resolver seus gargalos.

A pesquisa do Sebrae, FGV IBRE e Google aponta que os desafios variam conforme o porte. A falta de orientação aparece como obstáculo relevante para os menores negócios. Entre MEIs, 23% disseram não saber como aplicar a tecnologia na empresa. Já a preocupação com segurança foi citada por 12% das MPEs e 10% dos MEIs, proporções inferiores às observadas entre médias e grandes empresas.

Essa menor percepção de risco não significa que os dados estejam protegidos. Pequenos negócios também lidam com informações pessoais, dados de pagamento, contratos e histórico de clientes. Inserir esse material em uma ferramenta sem verificar suas regras de uso pode criar problemas de privacidade e segurança.

Um caminho de adoção mais responsável

O próximo passo não é adotar IA em todas as áreas ao mesmo tempo, mas escolher um problema específico e mensurável. Reduzir o tempo gasto para produzir uma campanha, responder perguntas recorrentes ou consolidar pedidos pode ser um ponto de partida mais seguro do que automatizar decisões sensíveis.

Antes de colocar uma ferramenta em operação, é importante definir quem poderá utilizá-la, que informações não devem ser inseridas e quem revisará as respostas. Também vale comparar o resultado com o processo anterior: houve economia de tempo? A qualidade melhorou? Clientes passaram a precisar de menos correções? Sem essa avaliação, a empresa corre o risco de confundir novidade com produtividade.

A IA pode ampliar a capacidade de pequenos negócios, especialmente quando ajuda o empreendedor a ganhar tempo e testar ideias. Seu valor, porém, depende de treinamento, revisão humana, proteção de dados e clareza sobre seus limites. A tecnologia pode acelerar uma tarefa; não substitui o conhecimento do negócio, a responsabilidade pelas decisões nem a confiança construída com os clientes.

Fontes