O Banco do Brasil afirma ter obtido, nos últimos 12 meses, um ganho de eficiência equivalente ao trabalho de 20 mil funcionários com o uso de inteligência artificial (IA). A informação foi apresentada pela presidente da instituição, Tarciana Medeiros, durante o 27º Congresso do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), realizado em São Paulo.
Segundo o relato, o banco utiliza atualmente cerca de 2,3 mil agentes de IA em seus sistemas. A presidente disse que o ganho de produtividade tem sido convertido em mais tempo para o relacionamento com os clientes. A declaração, porém, não detalha como o cálculo foi feito, quais atividades foram consideradas nem se a equivalência se refere a horas economizadas, volume de operações processadas ou redução de custos.
Essa distinção é importante. Dizer que uma tecnologia produz eficiência equivalente ao trabalho de milhares de pessoas não significa, necessariamente, que o banco tenha demitido esse contingente ou que 20 mil postos de trabalho tenham sido substituídos. A expressão pode indicar que sistemas automatizados passaram a executar tarefas que antes consumiam tempo de funcionários, permitindo que essas equipes se dediquem a outras atividades.
O que pode estar por trás do ganho
Em bancos, a IA pode ser aplicada a diferentes etapas da operação: atendimento, análise de documentos, detecção de fraudes, prevenção à lavagem de dinheiro, classificação de solicitações e apoio a funcionários. Também pode auxiliar na busca de informações internas e na automação de tarefas repetitivas.
Quando essas ferramentas funcionam de forma adequada, o efeito mais imediato tende a ser a redução do tempo gasto em rotinas administrativas. Um atendente, por exemplo, pode receber informações organizadas pelo sistema antes de conversar com o cliente. Analistas podem ter documentos e dados preliminares reunidos automaticamente. O resultado esperado é liberar tempo para tarefas que exigem julgamento, comunicação e conhecimento específico.
A quantidade de agentes mencionada pelo Banco do Brasil também merece interpretação cuidadosa. Um “agente” de IA pode desempenhar uma função delimitada, operar em uma etapa de um processo ou interagir com outros sistemas. Portanto, o número de agentes não permite concluir, por si só, o tamanho do impacto sobre a força de trabalho ou sobre os custos do banco.
Por que isso importa para clientes e empresas
Para os clientes, a automação pode significar respostas mais rápidas, atendimento disponível em mais horários e menor tempo para concluir operações. Em empresas, sobretudo nas que lidam com grande volume de documentos e transações, a IA pode reduzir gargalos e aumentar a capacidade de atendimento sem expansão proporcional das estruturas.
O benefício, contudo, depende da qualidade da implementação. Sistemas que classificam incorretamente uma solicitação, recusam uma transação legítima ou oferecem uma resposta inadequada podem gerar custos, reclamações e prejuízos de confiança. Em serviços financeiros, erros também podem afetar o acesso ao crédito, a segurança das contas e a detecção de operações suspeitas.
A adoção de IA ocorre em um momento em que a economia também registra forte movimento de abertura de pequenos negócios. Dados do Sebrae indicam que 3,6 milhões de novos negócios foram registrados no Brasil entre janeiro e julho de 2026, dos quais 3,4 milhões eram microempreendedores individuais, microempresas ou empresas de pequeno porte. Para esse público, bancos com processos mais automatizados podem oferecer serviços mais ágeis, mas também precisam preservar canais de suporte humano para situações complexas.
Produtividade não é sinônimo de substituição
O principal debate sobre o avanço da IA no trabalho não se resume ao número de empregos eliminados. A tecnologia pode substituir algumas tarefas, complementar o trabalho humano em outras e criar novas funções relacionadas a dados, segurança, supervisão e treinamento de sistemas.
No caso do Banco do Brasil, a afirmação de que o ganho foi usado para ampliar o relacionamento com clientes aponta para uma possível redistribuição de atividades. Mas será necessário acompanhar indicadores concretos: evolução do quadro de pessoal, investimentos em capacitação, qualidade do atendimento, número de reclamações, tempo de resposta e impacto sobre a produtividade de cada área.
Sem essas informações, a cifra de 20 mil funcionários deve ser tratada como uma estimativa apresentada pela administração do banco, e não como uma medição independente ou uma previsão sobre o futuro do emprego na instituição.
Governança e próximos passos
O avanço de agentes de IA também amplia a responsabilidade de governança. Um relatório do Fórum Econômico Mundial sobre tendências tecnológicas de 2026 destaca que sistemas capazes de simular ambientes e raciocinar sobre situações novas precisarão de mecanismos de auditoria, validação, responsabilização e supervisão. Embora essa tecnologia seja diferente das aplicações bancárias descritas, o princípio é semelhante: quanto maior o papel da IA em decisões relevantes, mais importante se torna saber como o sistema foi treinado, quais dados utiliza e quem responde por seus erros.
Para transformar o anúncio em resultado verificável, o Banco do Brasil poderia divulgar a metodologia do cálculo, os processos automatizados, os ganhos de tempo ou custo e os efeitos sobre clientes e empregados. Também será relevante esclarecer quais decisões permanecem sob responsabilidade de profissionais e como são tratados casos de contestação ou falha.
A notícia mostra que a IA já deixou de ser apenas uma promessa de laboratório e passou a integrar operações de grande escala. O ponto central, agora, é medir se a eficiência obtida se traduz em serviços melhores, mais seguros e acessíveis — e se os ganhos são acompanhados de transparência, qualificação profissional e supervisão humana.
Fontes
- IA gera eficiência equivalente a 20 mil funcionários no Banco do Brasil, diz presidente | Jornal do Comércio
- Conheça as 10 tendências tecnológicas de 2026 que prometem transformar a economia e a sociedade | Computer Weekly
- Abertura de pequenos negócios cresce quase 14% em 2026 | ASN Nacional - Agência Sebrae de Notícias
